Friday, September 08, 2006

Livros de chocolate.

Dedico esta crônica a Ana Paula Ramos que me contou o final de um livro e por isso fomos parar juntos na diretoria.

Lembro me como se fosse ontem, a primeira vez em que li um livro. Tinha treze anos, alguns quilos a mais e diante de mim uma brochura gasta da biblioteca Ataliba Leonel me observava como a um estranho. O livro de Rubem Fonseca foi lido em quase três meses, tamanha era minha disponibilidade, na ocasião, para coisas inteligentes. Meus pais, coitados, acompanharam a distancia toda a história que o livro contava, pois eu o lia em voz alta, bem alta aliás, além de alternar o tom de voz a cada diálogo proferido pelas personagens. Tudo para tornar aquele momento um pouco menos enfadonho e mais cinematográfico. A pobre da bibliotecária precisou renovar o empréstimo para mim mais de oito vezes, além de não dizer palavra sobre meus atrasos estratosféricos.
É engraçado, mas hoje dá para ver que tudo não passou de um grande complô para que eu ... começasse a gostar de ler. Primeiro a bibliotecária que não reclamava, nem dava multa. E depois o mais impressionante. Uma viagem para São Paulo com tudo pago para conhecer a Bienal do Livro. No início, o lugar não me interessava muito, o que me chamava a atenção, na verdade, era a possibilidade de viajar sozinho. Para um garoto de treze anos, essas coisas eram motivos para insônia. No entanto, a condição válida para ser um dos escolhidos era ter o nome manchado diversas vezes no livro de empréstimos da biblioteca. Ou seja, eu tinha três semanas para me tornar um leitor voraz e entre Pedro Bandeiras, Agatha Christies e Anne Franks fui escolhido. Eu tinha pegado tantos livros que meu oftalmologista me sugeriu até uma “armação para vistas cansadas”. Mas o pior foi que, ao me dar conta, o mal já estava consumado. Eu estava viciado em livros.
A partir daí, a literatura e o universo dos livros nunca mais saíram da minha cabeça. Desde julho de 1994, nunca passei um dia sequer sem estar lendo um livro. Não fazia distinções entre eles. Brochura ou edição de bolso. Capa dura ou até sem capa. Os livros pareciam chocolate. Comecei a comprá-los, pouco a pouco, pois minha mesada na época era de oito reais e um possível aumento ainda estava sendo discutido com meu pai. O que me salvava, eram aquelas feiras na praça que vendiam desde tapeçaria até... livros. E bem baratos, para ser sincero. Cada livro comprado era tratado como a uma pessoa. Tinham nome e data registrados para que não desaparecessem nas mãos de algum desavisado, a cada dois meses eram limpos com álcool, querosene ou qualquer coisa inflamável que pudessem impedir que as malévolas traças o transformassem num banquete literário. Isso sem dizer nas repreensões aos amigos mais íntimos que dobravam as páginas dos livros para marcar onde haviam parado a leitura. Ou pior não lavavam as mãos antes de virarem as páginas.
O mais engraçado é que não me lembro muito de alguns deles. Isso é verdade. O enredo e as personagens desapareceram na memória, mas quando abro qualquer um deles, aleatoriamente, acontece como uma alquimia. Não que à minha memória seja devolvida capacidade plena mas uma sensação de se voltar no tempo, outra intimidade carregada de tensão acontece. Ao abrir um livro lido, não me lembro dele na verdade, e sim dos fatores externos a ele. Onde eu estava quando o estava lendo, afinal existem lugares e lugares para se ler um livro. Quem estava comigo. E ainda como eu me sentia quando virava suas páginas. Tudo isso sem me lembrar da estória propriamente dita.
Hoje tenho uma pequena reunião de livros em meu quarto. Os livros todos me olham do alto de suas lombadas. Alguns deles me foram dados por pessoas que já se foram e muitos desses livros túmulos, como costumo chamá-los guardam em si uma estória muito particular. Lea D´Ércole, por exemplo, me dedicou “Anarquistas Graças à Deus” de Zéllia Gattai. Tia Terinha relembraria nossos tempos num novíssimo, na época, “Veronika Decide Morrer” de Paulo Coelho. Altamiro Dias me fez acreditar em extraterrestres com uma série completa de “Arquivo X”. Minha mãe rabiscou que eu realizaria todos meus sonhos na página 125 de “... E o Vento Levou” numa edição caprichada e que provavelmente sobreviverá a todas as demais. A maioria deles tão conservados que nem parecem que foram lidos por alguém. Acima deles, no alto uma plaquinha. “Não Empresto Livros. Se Quiser Leia-os Aqui!” Um ditado que ouvi, talvez, de outro livro-maníaco.

1 Comments:

Blogger Érika Dêgelo said...

Cassiano,
também tenho 'uma pequena reunião de livros' no meu quarto e o que mais odeio é emprestá-los, os poucos que foram jamais voltaram..Achei ótima a plaquinha, vou aderir!
Abraços

2:08 PM  

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