A maçã.

Demorou apenas um instante e a menina mordeu a maça. Arrancou metade dela só em uma dentada e vangloriou-se na frente dos outros colegas por ter sido a mais rápida a despedaçar a fruta amarrada por um barbante na árvore. Do outro lado da praça, a reunião matinal de cães indolentes ocupava, agora, grande parte das bordas do lago que separava o jardim, enquanto seus representantes mais eminentes se esbaldavam na água parada. O homem desceu a rampa vermelha que contornava o lago, passou pela menina enquanto ela ainda mastigava a maçã e pelos cães que bebiam água. Sentou-se no banquinho da praça, retirou o canivete de bolso e começou a esfregá-lo para cima e para baixo na superfície porosa do banco. Poucas vezes ele perscrutou tão profundamente fatos ligeiramente corriqueiros. Mas, enquanto olhava, sentiu aquela sensação de já ter estado ali uma vez. Percebia isto às vezes, no entanto era tão rápida que até duvidava que estivesse realmente acontecendo. Jurou que da próxima vez prestaria mais atenção em tudo. Levantou-se, abanou uma sujeira imaginária e partiu, sorrindo de si mesmo.
Demorou apenas um instante e o cachorro mordeu a menina. Apesar dos gritos e da correria das outras crianças, aquilo não amedrontou o animal que continuou com as mandíbulas presas e travadas na carne da garota. Ela se debatia e o cão praticamente arrancou um pedaço da sua roupa. Enquanto tentava se livrar dos dentes afiados, viu um homem do outro lado, com as mãos em concha bebendo a água fria e parada do lago. No chão, um canivete. Quando ouviu os gritos da garota, levantou se, apanhou a pequena faca de bolso e andou lentamente para ela. Aquele momento parecia dissolver qualquer atenção e durar toda eternidade .Não havia ninguém ali. Só eles. E era como se ela já tivesse estado ali uma vez, passado por aquilo tudo. Ansiava que o homem a ajudasse. Mas ele estacou. Abaixou-se e do bolso da jaqueta, tirou uma enorme maça vermelha e começou a descascá-la. Parecia apreciar a flagelação da garota e seus olhos estavam fixos no cão. A menina parou, não pela dor mas por aquela sensação de torpor que geralmente acontece quando se vive uma situação mais de uma vez, e olhou o cão com pena.
Demorou apenas um instante, e o homem mordeu os lábios. Pressionou-os, com força, até gotículas de sangue vermelho se formarem sob a pele fina dos lábios. A menina sorria e olhava para ele. Não era tão jovem assim. Tentava agarrar com os dentes uma maça, amarrada por um barbante, ou coisa parecida, no tronco de uma árvore. O cão, sentado sob a sombra refrescante da faia, observava a situação. O homem se levantou e remexeu no bolso. O canivete brilhou e o cachorro entendeu tudo. Ficou de prontidão enquanto o homem se dirigia para o grupo de crianças. A cada passo, a tensão entre eles crescia e a menina parou de sorrir. O cão não sabia, na verdade, se latia ou avançava, mas a cada momento tudo parecia girar em torno de algo que já tinha acontecido. Em preto e branco, registrava os passos do homem e parecia calcular o que viria a seguir. Preferiu não se intrometer. Escondeu-se debaixo da árvore e só levantou depois do grito agudo da garota explodir pelo jardim. Depois não viu mais nada.
Demorou apenas um instante, e aqueles três desconhecidos se olharam. A menina deixou cair a maça pendurada na árvore, que rolou pelo chão, próximo à matilha de cães e em frente ao senhor que afiava o canivete, talvez para fumar algum cigarro. Todos pareciam hipnotizados por aquele momento. O homem abaixou-se e um dos cães levantou a orelha. Alguém chamou a menina pelo nome. Mas ela só respondeu com aceno vago, sem se voltar. Ás vezes acontece, eles pensaram. Ás vezes, você sente que já passou por algo. Como se os três já tivessem visto aquela cena, mas sem prever o que viria depois. O som, o cheiro, as pessoas. Ás vezes, as coisas voltam. E você não pode fazer nada, por que está tentando identificar se aquela sensação é verdadeira ou não. Os três se olharam por mais alguns instantes e quase, imperceptivelmente, voltaram ao normal e se desfizeram um do outro. Demora um pouco, mas as coisas sempre voltam.
Demorou apenas um instante e o cachorro mordeu a menina. Apesar dos gritos e da correria das outras crianças, aquilo não amedrontou o animal que continuou com as mandíbulas presas e travadas na carne da garota. Ela se debatia e o cão praticamente arrancou um pedaço da sua roupa. Enquanto tentava se livrar dos dentes afiados, viu um homem do outro lado, com as mãos em concha bebendo a água fria e parada do lago. No chão, um canivete. Quando ouviu os gritos da garota, levantou se, apanhou a pequena faca de bolso e andou lentamente para ela. Aquele momento parecia dissolver qualquer atenção e durar toda eternidade .Não havia ninguém ali. Só eles. E era como se ela já tivesse estado ali uma vez, passado por aquilo tudo. Ansiava que o homem a ajudasse. Mas ele estacou. Abaixou-se e do bolso da jaqueta, tirou uma enorme maça vermelha e começou a descascá-la. Parecia apreciar a flagelação da garota e seus olhos estavam fixos no cão. A menina parou, não pela dor mas por aquela sensação de torpor que geralmente acontece quando se vive uma situação mais de uma vez, e olhou o cão com pena.
Demorou apenas um instante, e o homem mordeu os lábios. Pressionou-os, com força, até gotículas de sangue vermelho se formarem sob a pele fina dos lábios. A menina sorria e olhava para ele. Não era tão jovem assim. Tentava agarrar com os dentes uma maça, amarrada por um barbante, ou coisa parecida, no tronco de uma árvore. O cão, sentado sob a sombra refrescante da faia, observava a situação. O homem se levantou e remexeu no bolso. O canivete brilhou e o cachorro entendeu tudo. Ficou de prontidão enquanto o homem se dirigia para o grupo de crianças. A cada passo, a tensão entre eles crescia e a menina parou de sorrir. O cão não sabia, na verdade, se latia ou avançava, mas a cada momento tudo parecia girar em torno de algo que já tinha acontecido. Em preto e branco, registrava os passos do homem e parecia calcular o que viria a seguir. Preferiu não se intrometer. Escondeu-se debaixo da árvore e só levantou depois do grito agudo da garota explodir pelo jardim. Depois não viu mais nada.
Demorou apenas um instante, e aqueles três desconhecidos se olharam. A menina deixou cair a maça pendurada na árvore, que rolou pelo chão, próximo à matilha de cães e em frente ao senhor que afiava o canivete, talvez para fumar algum cigarro. Todos pareciam hipnotizados por aquele momento. O homem abaixou-se e um dos cães levantou a orelha. Alguém chamou a menina pelo nome. Mas ela só respondeu com aceno vago, sem se voltar. Ás vezes acontece, eles pensaram. Ás vezes, você sente que já passou por algo. Como se os três já tivessem visto aquela cena, mas sem prever o que viria depois. O som, o cheiro, as pessoas. Ás vezes, as coisas voltam. E você não pode fazer nada, por que está tentando identificar se aquela sensação é verdadeira ou não. Os três se olharam por mais alguns instantes e quase, imperceptivelmente, voltaram ao normal e se desfizeram um do outro. Demora um pouco, mas as coisas sempre voltam.

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