Thursday, September 07, 2006

A partida ou Pequeno vaso rubro de vida




Existem dias piores que os dias de chuva; são os dias de nostalgia. Era isso que ele tinha em mente antes de arrebentar seus miolos naquela quinta feira comum. Fazia frio, e o sol espiava por entre as nuvens lançando dedos de luz pálida aqui e ali. Ninguém jamais saberia o que aconteceu. Aqueles que viriam depois formulariam hipóteses e teorias de conspiração as mais estapafúrdias enquanto limpavam o serviço, mas não poderiam afirmar com exatidão, nem perscrutar a mente daquele que de uma hora para outra resolveu descer do trem. Acordou bem cedo, preparou o café e desceu os cinco lances de escada que o separavam do mundo real. O dia tinha começado. Carros transitavam sem parar e uma miríade de pessoas atravessava sua frente sem saber que em quarenta, cinqüenta ou cem anos não estariam ali para presenciar os avanços da ciência, as novas descobertas, as quedas das instituições; ele, no entanto já não estaria ali nas próximas duas horas. Caminhou até um pequeno parque e sentou-se num daqueles simpáticos banquinhos de madeira branca enquanto o cálido mormaço se desvanecia e o dia se tornava mais cinza.
Não haveria uma historia para contar, nem pistas para seguir, afinal era ele quem estava partindo. Outros viriam em seu lugar. Retirou um pedaço de papel colorido do bolso, que se pertencesse a uma garota, certamente, teria perfume. A única resposta, na verdade, seria um convite que ele nunca poderia apreciar. As pessoas são diferentes. Rabiscou: “Torne sua vida extraordinária, afinal um dia você se tornará também adubo para flores”. Sorriu e voltou o papel ao bolso. Ele tinha descoberto a resposta e era como se desvendasse Deus, por isso estava partindo.
Ele sabia, no íntimo, que quando se fosse poucas coisas deixariam de ser como são. O céu continuaria a brilhar e a noite chegaria depois, inevitavelmente. O cosmo não pararia. As flores não deixariam de atrair os pássaros e os insetos prolongariam sua existência. As pedras não deixariam de falar. Não. Os rios continuariam a correr e a transbordar vez por outra. A intensidade dos ventos permaneceria a mesma e as mesmas histórias seriam contadas sempre. As coincidências continuariam a acontecer sem que as pessoas deixassem de confundi-las com destino e as mesmas dúvidas nasceriam a cada nova geração. Na verdade, era como se toda sua existência estivesse dentro de uma mala. Cada um tem a sua. E, inesperadamente, alguém começasse a revira-la e inverter seu conteúdo, sem que você tivesse tempo de impedir. Ele sentiu isso. Como a mãe que guarda o umbigo do filho de recordação e o filho que vê a ossada da mãe dar lugar a mais espaço no chão.
Não havia paradoxo maior; não se considerava cético demais a ponto de avaliar a vida como insignificante ou mero respiro, antes a tinha como um relicário desafiador e ele simplesmente não conseguia toca-la. Sua mala nunca fora aberta. Se partisse, realmente, outro pai, outro irmão, outro amigo também viria depois, se tornariam fortes e se incluiriam na infindável cadeia do que é efêmero. Tocou a arma, sob o paletó e chorou duas lágrimas curtas. Não sabia, ao certo, de onde vinha; não tinha argumentos para tornar evidente qualquer crença, nem levantaria qualquer bandeira de certeza sobre nenhum assunto que pudesse morrer nos seus lábios. As pessoas são diferentes. Às vezes ouvia alguém comentar que não podia dizer algo ou amar alguém, que não conseguia perdoar ou se permitir viver a vida em plenitude, assumir atos de egoísmo por que também tinha direito, ser difícil e controlador porque minha personalidade é assim, desculpe. Na verdade, eles não quiseram. Puderam entender, mas não quiseram. Puderam amar, mas não quiseram. Puderam se tornar essência, ainda quando tudo era aparência e, simplesmente, não quiseram. Talvez ele fosse um deles, talvez ele não quisesse.
Pensou no dia seguinte, enquanto um bando de andorinhas fez um rasante no céu de chumbo. Todo mundo imagina como seria sua própria partida, pela ótica dos outros. Mas os outros apenas diriam que era necessário continuar.E, nesse momento ele quase desistiu. Tinha tido um filho e plantado uma árvore, mas não escrevera um livro. No entanto sabia que se igualaria ao outros que o precederam, afinal no fim do jogo o peão e o rei não iam para a mesma caixa? Quando se fosse, realmente, os pássaros não parariam de cantar. A dança envolvente da lua continuaria a influenciar tanto o bebê quanto o mar. Não se poderia voltar no tempo, nem avançar ao futuro, mas as pessoas continuariam acreditando que um dia conseguiriam. O por do sol seria contemplado ainda por poucas pessoas e as clínicas psiquiátricas continuariam lotadas. Os convites para se pular de olhos fechados seriam cada vez mais escassos e as leis ainda mais preponderantes. A chuva cairia, sim, com intensidade, mas as pessoas desviariam sempre das poças e se esconderiam sob toldos e guarda chuvas com medo de se molhar. Quando ele se fosse, as máquinas não parariam de funcionar e o sistema continuaria o mesmo. Os diferentes seriam sempre diferentes e os iguais também seriam diferentes. Quando se fosse, as pessoas continuariam a falar de amor. Apenas a falar. Quando ele se fosse, bem... Foi ele quem foi.
A explosão do disparo tremeu o parque e continuou por algum tempo, se prolongando pelo espaço. No entanto, as cigarras interromperam seu canto por apenas um minuto. Depois voltaram a cantar.


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