Friday, September 08, 2006

Se...


Se não fosse o início, não teríamos o fim. E a metade, o meio do caminho, onde aumentaríamos a força da experiência também não existiria. Se não fosse a tentação, não teríamos Eva e, sem ela, provavelmente ainda estaríamos nus e descomprometidos com o pudor. Se ainda estivéssemos assim, preservados em nosso estado natural, talvez não tivéssemos tanto medo do mundo. Mas, se não fosse o medo não teríamos o impulso, sem o qual a vida pareceria uma linha reta e inócua. E, dessa forma, não haveria mais nenhum tipo de provocação. Se não fosse o desafio de provocar, não teríamos o risco e a existência acabaria por si. Sem a tentativa, não haveria o desejo e, sem ele, o ímpeto seria conceito vago. E se o ímpeto também não existisse, não haveria o torpor da conquista, sem o qual tudo seria tédio e onde tudo poderia existir, mas sem sentido algum.
Se não fosse o trabalho, não teríamos o sustento. Se não houvesse suficiência, não existiria dignidade. Sem esta, certamente, não teríamos esperança. Se não fosse a esperança continuaríamos vivendo, porém sem tocar a vida. Se não fosse a parede, não teríamos o quadro. Sem este, o pintor ficaria imobilizado. E se isso fosse possível toda arte ficaria comprometida. Se não fosse o nome, seríamos qualquer um. E se isso se tornasse fato, poderíamos aceitar os números. Se não fossem os números, as tragédias poderiam ser esquecidas mais facilmente. Se não fossem as tragédias, não teríamos o caos. Caso este também não existisse, o mundo seria pacífico. Se o mundo fosse pacífico, bem, ainda não se tem uma significação absoluta deste ponto.
Se não fosse a razão, não teríamos a loucura. Se não fosse a loucura, não teríamos histórias para contar. Se as histórias deixassem de existir, todos os feitos seriam esquecidos no momento único de seu fim. Se não fosse o pensamento, não teríamos as idéias. Se elas desaparecessem, nada seria modificado. E, se tudo permanecesse como é, não haveria desenvolvimento. Sem este, não existiria adaptação e nos tornaríamos traumatizados a cada volta do mundo. Se não fosse a raiz, não teríamos o caule. Sem este, a sustentação se romperia e tudo o mais viria ao chão. Se não fosse a palavra, não teríamos a poesia. Sem ela, a cor das letras seria cinza e, novamente, tudo o mais viria ao chão. Se não fosse o dia não teríamos a noite. Sem este ciclo, nunca poderíamos acreditar que tudo passa. Entretanto, assistimos os dias e as noites, há milhões e milhões de anos, e ainda não pudemos desvendar seu enigma.
Se não fosse a força, não teríamos a justiça. Caso não se soubesse de justiça, não teríamos igualdade. E se esta não existisse, se estabeleceria a tirania e o preconceito, os números e o caos seriam conceitos corriqueiros. Se não fosse a flor, não teríamos o perfume. E se o perfume não existisse, aquela sensação de se poder voltar no tempo, ao sentir determinado aroma, também desapareceria. Se não fosse o próximo, não haveria o Eu. Se não houvesse o Eu, estaríamos completamente sozinhos. Se não houvesse solidão, não entenderíamos a importância de se ter alguém. E se este alguém fosse embora um dia, apenas voltaríamos ao nosso estado original nos adaptando, nos desenvolvendo e nos modificando continuamente. Se não fossem os olhos, não teríamos a boca. Sem a boca, não saberíamos o que é o beijo. Se não fosse o beijo, não haveria as juras, sem as quais o risco, o sonho, o medo, o ímpeto e o perfume também deixariam de existir. Se não fosse o problema, não haveria a solução. Sem solução, existiria o descaso e, com ele, a luta perderia seu sentido, fazendo do trabalho, da conquista e da dignidade termos estéreis. Se não fosse a perda, não teríamos a angústia. Sem angústia, seríamos rápidos demais e não pararíamos para ver a dança do sol e da lua. Se não fosse a beleza, não haveria crueza. Se não fosse o amigo, haveria tristeza. Se não fosse o inimigo, não haveria graça. Se não fosse a morte, não haveria certeza.
E tudo isso embrulhado para presente.

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