Friday, September 08, 2006

Coisas que não existem.


Imagine agora uma reunião hipotética de personagens de estórias infantis. Uma mesa de reuniões. E Papai Noel presidindo a sessão. Uma verdadeira mesa redonda de conto de fadas. Os participantes começam a chegar. Um a um. Branca de Neve entrou tímida. Cabeça baixa. Numa das mãos uma caixinha amarela com tarja preta. Antidepressivos. Sentou-se numa das pontas da mesa e aguardou. Os ursinhos carinhosos entraram correndo, cantando e se jogando uns sobre os outros. Bêbados, todos eles. Alice chegou antes do coelho. Estava com as roupas rasgadas e o corpo coberto por hematomas. Sentou-se num canto da sala, longe de todos. Fechou os olhos e esperou. Chapeuzinho Vermelho entrou de mãos dadas com o Lobo Mau e ambos tinham nos dedos uma aliança de compromisso. Tascou um beijo no focinho do animal e anunciou o casamento. Pedrinho, Narizinho e Emília chegaram inesperadamente, saídos de uma audiência jurídica. Tinham sido expulsos do antigo Sítio do Pica Pau Amarelo, que agora era mais um empreendimento do riquíssimo Marcelino Pão e Vinho.
Depois deles vieram outros e logo a sala estava repleta de personagens imaginários. Papai Noel, que agora usava piercings e cabeleira moicana, bateu levemente no tampo da mesa, pedindo atenção e o alvoroço foi aos poucos dando lugar a um silêncio sepulcral. A reunião fora marcada com antecedência à meia-noite; só assim todos poderiam participar. Eles sabiam o motivo da reunião. Por um tempo, povoaram o imaginário popular infantil; foram heróis e heroínas de gerações sem conta. Agora estavam ali, vivenciando problemas de pessoas comuns. Eles eram pessoas comuns! E sequer tinham consistência. Estavam isolados e, pouco a pouco, eram tragados pelo limbo do esquecimento. O debate começou e Papai Noel levantou as questões principais. Perguntou o porquê de tudo aquilo. A fera arriscou e disse tratar-se de uma tal tecnologia. Maria, irmã de João, corrigiu e tentou explicar que os avanços da era moderna fizeram com que as estórias e seus personagens se tornassem tediosos demais. E não havia migalhas de pão no caminho.
A Bruxa Má do Leste disse que tudo era culpa das crianças, que preferiam ficar sentadas diante do computador, apertando teclas sem parar. Os livros deixariam de existir a qualquer momento. Todos sabiam o que estava acontecendo, mas ninguém fazia nada para mudar. Pinóquio gritou que os adultos deveriam ser entregues às autoridades literárias e foi aplaudido por cento e um cães dálmatas.
Alguns participantes começaram a se exaltar pelo fato de ainda estarem ali. Perdidos entre traças e esquecimentos. O burburinho foi ficando cada vez alto e alguns chegaram a se levantar, brandindo dedos e patas em defesa de suas carochinhas. De um salto, o Gato de Botas surgiu sobre o tampo da mesa e miou. O chiado era tão baixo que seria inaudível, caso a palavra não tivesse reverberado por todos os ouvidos, de uma só vez e a um só tempo, como uma ordem: Literatura.Todos silenciaram e até o gato pareceu emudecer-se de repente. Que palavra era aquela capaz de abrandar tantos corações imaginários? Eles eram literatura? Mas estavam sendo esquecidos e a literatura era universal...
De repente, a porta da sala de reuniões se abriu e um menino franzino entrou, arrastando uma perna machucada e o braço numa tipóia. Não abriu a boca. Como se seus pensamentos pudessem se transformar em palavras. “Eu sou a Literatura!”, bradou ele em pensamento como só numa boa estória infantil poderia acontecer. Havia, ainda, perguntas sem resposta. Por que ninguém perguntava o motivo do sapatinho de cristal da Cinderela ser a única coisa que não se transformara em abóbora depois da meia noite? Qual a fórmula da poção que os ursinhos Gummy tomavam que os deixava tão eletrizados? Por que o Vingador tinha só um chifre? Ninguém sabia!
O menino jogou as muletas e, para espanto de todos, caminhou até a mesa. Há muito tempo atrás, aquele mesmo garoto correra de trás de uma montanha gritando a todos que um Lobo o perseguia. Os moradores da província não acreditaram nos pedidos de socorro do rapazinho. Foi devorado pelo animal. Isso era vida real. Quando um dejà vú lhe permitiu uma nova possibilidade, ele voltou correndo de trás da montanha, gritando que Lobo ainda o perseguia. Imediatamente, todos o socorreram. Mas atrás da montanha não havia Lobo algum. Mentirinha. Aquilo era Literatura.
Todos sorriram com sua boa moral. Afinal, quem não acreditava em Literatura ou no Lobo da montanha se humanizava. E quando isso acontecia, todo o resto se tornava real demais.E, então, todos viveram felizes para sempre.

Livros de chocolate.

Dedico esta crônica a Ana Paula Ramos que me contou o final de um livro e por isso fomos parar juntos na diretoria.

Lembro me como se fosse ontem, a primeira vez em que li um livro. Tinha treze anos, alguns quilos a mais e diante de mim uma brochura gasta da biblioteca Ataliba Leonel me observava como a um estranho. O livro de Rubem Fonseca foi lido em quase três meses, tamanha era minha disponibilidade, na ocasião, para coisas inteligentes. Meus pais, coitados, acompanharam a distancia toda a história que o livro contava, pois eu o lia em voz alta, bem alta aliás, além de alternar o tom de voz a cada diálogo proferido pelas personagens. Tudo para tornar aquele momento um pouco menos enfadonho e mais cinematográfico. A pobre da bibliotecária precisou renovar o empréstimo para mim mais de oito vezes, além de não dizer palavra sobre meus atrasos estratosféricos.
É engraçado, mas hoje dá para ver que tudo não passou de um grande complô para que eu ... começasse a gostar de ler. Primeiro a bibliotecária que não reclamava, nem dava multa. E depois o mais impressionante. Uma viagem para São Paulo com tudo pago para conhecer a Bienal do Livro. No início, o lugar não me interessava muito, o que me chamava a atenção, na verdade, era a possibilidade de viajar sozinho. Para um garoto de treze anos, essas coisas eram motivos para insônia. No entanto, a condição válida para ser um dos escolhidos era ter o nome manchado diversas vezes no livro de empréstimos da biblioteca. Ou seja, eu tinha três semanas para me tornar um leitor voraz e entre Pedro Bandeiras, Agatha Christies e Anne Franks fui escolhido. Eu tinha pegado tantos livros que meu oftalmologista me sugeriu até uma “armação para vistas cansadas”. Mas o pior foi que, ao me dar conta, o mal já estava consumado. Eu estava viciado em livros.
A partir daí, a literatura e o universo dos livros nunca mais saíram da minha cabeça. Desde julho de 1994, nunca passei um dia sequer sem estar lendo um livro. Não fazia distinções entre eles. Brochura ou edição de bolso. Capa dura ou até sem capa. Os livros pareciam chocolate. Comecei a comprá-los, pouco a pouco, pois minha mesada na época era de oito reais e um possível aumento ainda estava sendo discutido com meu pai. O que me salvava, eram aquelas feiras na praça que vendiam desde tapeçaria até... livros. E bem baratos, para ser sincero. Cada livro comprado era tratado como a uma pessoa. Tinham nome e data registrados para que não desaparecessem nas mãos de algum desavisado, a cada dois meses eram limpos com álcool, querosene ou qualquer coisa inflamável que pudessem impedir que as malévolas traças o transformassem num banquete literário. Isso sem dizer nas repreensões aos amigos mais íntimos que dobravam as páginas dos livros para marcar onde haviam parado a leitura. Ou pior não lavavam as mãos antes de virarem as páginas.
O mais engraçado é que não me lembro muito de alguns deles. Isso é verdade. O enredo e as personagens desapareceram na memória, mas quando abro qualquer um deles, aleatoriamente, acontece como uma alquimia. Não que à minha memória seja devolvida capacidade plena mas uma sensação de se voltar no tempo, outra intimidade carregada de tensão acontece. Ao abrir um livro lido, não me lembro dele na verdade, e sim dos fatores externos a ele. Onde eu estava quando o estava lendo, afinal existem lugares e lugares para se ler um livro. Quem estava comigo. E ainda como eu me sentia quando virava suas páginas. Tudo isso sem me lembrar da estória propriamente dita.
Hoje tenho uma pequena reunião de livros em meu quarto. Os livros todos me olham do alto de suas lombadas. Alguns deles me foram dados por pessoas que já se foram e muitos desses livros túmulos, como costumo chamá-los guardam em si uma estória muito particular. Lea D´Ércole, por exemplo, me dedicou “Anarquistas Graças à Deus” de Zéllia Gattai. Tia Terinha relembraria nossos tempos num novíssimo, na época, “Veronika Decide Morrer” de Paulo Coelho. Altamiro Dias me fez acreditar em extraterrestres com uma série completa de “Arquivo X”. Minha mãe rabiscou que eu realizaria todos meus sonhos na página 125 de “... E o Vento Levou” numa edição caprichada e que provavelmente sobreviverá a todas as demais. A maioria deles tão conservados que nem parecem que foram lidos por alguém. Acima deles, no alto uma plaquinha. “Não Empresto Livros. Se Quiser Leia-os Aqui!” Um ditado que ouvi, talvez, de outro livro-maníaco.

Se...


Se não fosse o início, não teríamos o fim. E a metade, o meio do caminho, onde aumentaríamos a força da experiência também não existiria. Se não fosse a tentação, não teríamos Eva e, sem ela, provavelmente ainda estaríamos nus e descomprometidos com o pudor. Se ainda estivéssemos assim, preservados em nosso estado natural, talvez não tivéssemos tanto medo do mundo. Mas, se não fosse o medo não teríamos o impulso, sem o qual a vida pareceria uma linha reta e inócua. E, dessa forma, não haveria mais nenhum tipo de provocação. Se não fosse o desafio de provocar, não teríamos o risco e a existência acabaria por si. Sem a tentativa, não haveria o desejo e, sem ele, o ímpeto seria conceito vago. E se o ímpeto também não existisse, não haveria o torpor da conquista, sem o qual tudo seria tédio e onde tudo poderia existir, mas sem sentido algum.
Se não fosse o trabalho, não teríamos o sustento. Se não houvesse suficiência, não existiria dignidade. Sem esta, certamente, não teríamos esperança. Se não fosse a esperança continuaríamos vivendo, porém sem tocar a vida. Se não fosse a parede, não teríamos o quadro. Sem este, o pintor ficaria imobilizado. E se isso fosse possível toda arte ficaria comprometida. Se não fosse o nome, seríamos qualquer um. E se isso se tornasse fato, poderíamos aceitar os números. Se não fossem os números, as tragédias poderiam ser esquecidas mais facilmente. Se não fossem as tragédias, não teríamos o caos. Caso este também não existisse, o mundo seria pacífico. Se o mundo fosse pacífico, bem, ainda não se tem uma significação absoluta deste ponto.
Se não fosse a razão, não teríamos a loucura. Se não fosse a loucura, não teríamos histórias para contar. Se as histórias deixassem de existir, todos os feitos seriam esquecidos no momento único de seu fim. Se não fosse o pensamento, não teríamos as idéias. Se elas desaparecessem, nada seria modificado. E, se tudo permanecesse como é, não haveria desenvolvimento. Sem este, não existiria adaptação e nos tornaríamos traumatizados a cada volta do mundo. Se não fosse a raiz, não teríamos o caule. Sem este, a sustentação se romperia e tudo o mais viria ao chão. Se não fosse a palavra, não teríamos a poesia. Sem ela, a cor das letras seria cinza e, novamente, tudo o mais viria ao chão. Se não fosse o dia não teríamos a noite. Sem este ciclo, nunca poderíamos acreditar que tudo passa. Entretanto, assistimos os dias e as noites, há milhões e milhões de anos, e ainda não pudemos desvendar seu enigma.
Se não fosse a força, não teríamos a justiça. Caso não se soubesse de justiça, não teríamos igualdade. E se esta não existisse, se estabeleceria a tirania e o preconceito, os números e o caos seriam conceitos corriqueiros. Se não fosse a flor, não teríamos o perfume. E se o perfume não existisse, aquela sensação de se poder voltar no tempo, ao sentir determinado aroma, também desapareceria. Se não fosse o próximo, não haveria o Eu. Se não houvesse o Eu, estaríamos completamente sozinhos. Se não houvesse solidão, não entenderíamos a importância de se ter alguém. E se este alguém fosse embora um dia, apenas voltaríamos ao nosso estado original nos adaptando, nos desenvolvendo e nos modificando continuamente. Se não fossem os olhos, não teríamos a boca. Sem a boca, não saberíamos o que é o beijo. Se não fosse o beijo, não haveria as juras, sem as quais o risco, o sonho, o medo, o ímpeto e o perfume também deixariam de existir. Se não fosse o problema, não haveria a solução. Sem solução, existiria o descaso e, com ele, a luta perderia seu sentido, fazendo do trabalho, da conquista e da dignidade termos estéreis. Se não fosse a perda, não teríamos a angústia. Sem angústia, seríamos rápidos demais e não pararíamos para ver a dança do sol e da lua. Se não fosse a beleza, não haveria crueza. Se não fosse o amigo, haveria tristeza. Se não fosse o inimigo, não haveria graça. Se não fosse a morte, não haveria certeza.
E tudo isso embrulhado para presente.

O colecionador de sensações.

Existem poucas coisas que motivam mais o ser humano que aquelas que não causem qualquer sensação de assombro, poder, prazer ou vitória. Mas, às vezes, um único segundo, destituído, a princípio, de qualquer pretensão, pode te alçar a um ponto geográfico tão alto que, de tão rápido e fugaz, questiona-se sua veracidade. E não fique constrangido, caro leitor, caso esta sensação dure apenas alguns milésimos de segundos de sua vida efêmera, pois provavelmente ela acontecerá num dos seus últimos momentos de lucidez. É o último porque traz a resposta. Como num filme. E toda resposta chega, invariavelmente, no fim.
E você descobre, como num passe de mágica, que seus pais erram tanto quanto você e que, apesar da idade, eles sentem a mesma insegurança antes de tomar qualquer decisão. Que as pessoas não são más como você pensa, elas só tiveram um direcionamento de vida diferente do seu. E que você não é tão bonzinho quanto pensa, já que quando pensa só você sabe o que vai na sua cabeça. Vai sentir que quanto mais difícil o desafio, mas forte você fica no final. E é por isso que o perdedor, que teve mais dificuldade no percurso, é aquele que merece mais palmas. Vai perceber que por mais caridoso que você seja, se não enxergar o outro como uma segunda possibilidade de você mesmo, não adianta nada.
Vai descobrir que você pode amar várias pessoas durante toda sua vida, mas sempre vai existir aquela que vai te roubar um pedaço, te despersonalizar, sacudir suas estruturas, bater a poeira e desaparecer. Isso é importante e só acontece uma vez. O pior é que você vai se lembrar sempre. Vai entender o sentido da perda sempre no dia seguinte. Vai descobrir que por mais que as pessoas te amem e por mais que elas possam se magoar, você precisa viver sua própria vida. O único problema é que todos têm um prazo de validade, portanto não perca tempo. Vai perceber que nada do que você faça ou diga vai mudar a pessoa do seu lado, por isso ela está do seu lado e não dentro de você. Não nivele os outros por si mesmo.
Vai entender a importância do sono e do trabalho, pois se não fizer nem uma coisa nem outra, sua vida vai se resumir a apenas um terço. E o dia tem apenas 24 horas. Vai entender a lógica da felicidade e que ela só acontece quando você espera por uma coisa melhor, por isso não vê passar os momentos mais fascinantes da vida. Vai entender que em alguns momentos é melhor silenciar e que as pessoas mais velhas têm mais dificuldades de assumir erros, portanto é melhor respeita-las por isto já que você também vai se tornar inflexível um dia. Vai descobrir que a inteligência e a cultura vão alça-lo ao mais alto nível de relações, mas precisa descobrir o tom da intelectualidade pois o excesso de saber segrega você das coisas simples.
Vai compreender que nem sempre você precisa saber tudo; basta interpretar. E que quanto mais velho fica mais significados encontra para coisas sem resposta. E não importa o que te faz feliz; tudo vai passar. E esse sentido de fim é muito importante para que você não perca tempo recolhendo os restos daquilo que poderia ter sido e não foi. Tenha sempre em mente: algumas coisas não têm solução. Acostume-se com o acaso, ele vai te pegar de vez em quando e você vai sentir o prazer que existe em não saber o que vai acontecer em seguida. Baseie sua vida em algo maior. E ame, ame muito.
Vai descobrir que ninguém vai te entregar a felicidade embrulhada para presente. A felicidade está dentro de você, por isso é quase impossível encontra-la. Vai descobrir a importância de estar sozinho. Afinal, se o amor unisse, de fato, certamente existiriam caixões de casal. Vai avaliar a importância do risco e da tentativa e, provavelmente, se perguntar porque teve tanto medo de pular de olhos fechados. Enfim, vai encontrar sentido em todas as passagens pessoais de sua vida, desde as ridículas até as mais encantadoras, e todas terão sua boa moral. Vai compreender cada não, cada barreira, cada perda e cada pessoa que te fez chorar. E cada volta, não mais parecerá um retorno mas, muitas vezes um atalho. E todo medo se dissolverá com a facilidade das mais fáceis das equações. E tudo isso seguido de um alívio tremendo e uma sensação de missão cumprida que só vem no final, e cuja maior satisfação seria resumida numa simples frase de consolo: Por que não percebi tudo antes? E a vida se descortina em uma descoberta elementar, tão cabal e encantadora, e tão livre de prefácios e regras quanto uma brincadeira de criança. Ao sentir que a qualidade que te faz ser humano não é, nem de longe, a capacidade de pensar. Mas o poder de colecionar todas as sensações, boas ou ruins, de uma vida e, dessa forma, continuar muito tempo depois de ter partido ao projetar nos outros este mesmo sentido e significado que você, e só você, soube encontrar. Só assim terá valido a pena.

Thursday, September 07, 2006

A partida ou Pequeno vaso rubro de vida




Existem dias piores que os dias de chuva; são os dias de nostalgia. Era isso que ele tinha em mente antes de arrebentar seus miolos naquela quinta feira comum. Fazia frio, e o sol espiava por entre as nuvens lançando dedos de luz pálida aqui e ali. Ninguém jamais saberia o que aconteceu. Aqueles que viriam depois formulariam hipóteses e teorias de conspiração as mais estapafúrdias enquanto limpavam o serviço, mas não poderiam afirmar com exatidão, nem perscrutar a mente daquele que de uma hora para outra resolveu descer do trem. Acordou bem cedo, preparou o café e desceu os cinco lances de escada que o separavam do mundo real. O dia tinha começado. Carros transitavam sem parar e uma miríade de pessoas atravessava sua frente sem saber que em quarenta, cinqüenta ou cem anos não estariam ali para presenciar os avanços da ciência, as novas descobertas, as quedas das instituições; ele, no entanto já não estaria ali nas próximas duas horas. Caminhou até um pequeno parque e sentou-se num daqueles simpáticos banquinhos de madeira branca enquanto o cálido mormaço se desvanecia e o dia se tornava mais cinza.
Não haveria uma historia para contar, nem pistas para seguir, afinal era ele quem estava partindo. Outros viriam em seu lugar. Retirou um pedaço de papel colorido do bolso, que se pertencesse a uma garota, certamente, teria perfume. A única resposta, na verdade, seria um convite que ele nunca poderia apreciar. As pessoas são diferentes. Rabiscou: “Torne sua vida extraordinária, afinal um dia você se tornará também adubo para flores”. Sorriu e voltou o papel ao bolso. Ele tinha descoberto a resposta e era como se desvendasse Deus, por isso estava partindo.
Ele sabia, no íntimo, que quando se fosse poucas coisas deixariam de ser como são. O céu continuaria a brilhar e a noite chegaria depois, inevitavelmente. O cosmo não pararia. As flores não deixariam de atrair os pássaros e os insetos prolongariam sua existência. As pedras não deixariam de falar. Não. Os rios continuariam a correr e a transbordar vez por outra. A intensidade dos ventos permaneceria a mesma e as mesmas histórias seriam contadas sempre. As coincidências continuariam a acontecer sem que as pessoas deixassem de confundi-las com destino e as mesmas dúvidas nasceriam a cada nova geração. Na verdade, era como se toda sua existência estivesse dentro de uma mala. Cada um tem a sua. E, inesperadamente, alguém começasse a revira-la e inverter seu conteúdo, sem que você tivesse tempo de impedir. Ele sentiu isso. Como a mãe que guarda o umbigo do filho de recordação e o filho que vê a ossada da mãe dar lugar a mais espaço no chão.
Não havia paradoxo maior; não se considerava cético demais a ponto de avaliar a vida como insignificante ou mero respiro, antes a tinha como um relicário desafiador e ele simplesmente não conseguia toca-la. Sua mala nunca fora aberta. Se partisse, realmente, outro pai, outro irmão, outro amigo também viria depois, se tornariam fortes e se incluiriam na infindável cadeia do que é efêmero. Tocou a arma, sob o paletó e chorou duas lágrimas curtas. Não sabia, ao certo, de onde vinha; não tinha argumentos para tornar evidente qualquer crença, nem levantaria qualquer bandeira de certeza sobre nenhum assunto que pudesse morrer nos seus lábios. As pessoas são diferentes. Às vezes ouvia alguém comentar que não podia dizer algo ou amar alguém, que não conseguia perdoar ou se permitir viver a vida em plenitude, assumir atos de egoísmo por que também tinha direito, ser difícil e controlador porque minha personalidade é assim, desculpe. Na verdade, eles não quiseram. Puderam entender, mas não quiseram. Puderam amar, mas não quiseram. Puderam se tornar essência, ainda quando tudo era aparência e, simplesmente, não quiseram. Talvez ele fosse um deles, talvez ele não quisesse.
Pensou no dia seguinte, enquanto um bando de andorinhas fez um rasante no céu de chumbo. Todo mundo imagina como seria sua própria partida, pela ótica dos outros. Mas os outros apenas diriam que era necessário continuar.E, nesse momento ele quase desistiu. Tinha tido um filho e plantado uma árvore, mas não escrevera um livro. No entanto sabia que se igualaria ao outros que o precederam, afinal no fim do jogo o peão e o rei não iam para a mesma caixa? Quando se fosse, realmente, os pássaros não parariam de cantar. A dança envolvente da lua continuaria a influenciar tanto o bebê quanto o mar. Não se poderia voltar no tempo, nem avançar ao futuro, mas as pessoas continuariam acreditando que um dia conseguiriam. O por do sol seria contemplado ainda por poucas pessoas e as clínicas psiquiátricas continuariam lotadas. Os convites para se pular de olhos fechados seriam cada vez mais escassos e as leis ainda mais preponderantes. A chuva cairia, sim, com intensidade, mas as pessoas desviariam sempre das poças e se esconderiam sob toldos e guarda chuvas com medo de se molhar. Quando ele se fosse, as máquinas não parariam de funcionar e o sistema continuaria o mesmo. Os diferentes seriam sempre diferentes e os iguais também seriam diferentes. Quando se fosse, as pessoas continuariam a falar de amor. Apenas a falar. Quando ele se fosse, bem... Foi ele quem foi.
A explosão do disparo tremeu o parque e continuou por algum tempo, se prolongando pelo espaço. No entanto, as cigarras interromperam seu canto por apenas um minuto. Depois voltaram a cantar.


A maçã.


Demorou apenas um instante e a menina mordeu a maça. Arrancou metade dela só em uma dentada e vangloriou-se na frente dos outros colegas por ter sido a mais rápida a despedaçar a fruta amarrada por um barbante na árvore. Do outro lado da praça, a reunião matinal de cães indolentes ocupava, agora, grande parte das bordas do lago que separava o jardim, enquanto seus representantes mais eminentes se esbaldavam na água parada. O homem desceu a rampa vermelha que contornava o lago, passou pela menina enquanto ela ainda mastigava a maçã e pelos cães que bebiam água. Sentou-se no banquinho da praça, retirou o canivete de bolso e começou a esfregá-lo para cima e para baixo na superfície porosa do banco. Poucas vezes ele perscrutou tão profundamente fatos ligeiramente corriqueiros. Mas, enquanto olhava, sentiu aquela sensação de já ter estado ali uma vez. Percebia isto às vezes, no entanto era tão rápida que até duvidava que estivesse realmente acontecendo. Jurou que da próxima vez prestaria mais atenção em tudo. Levantou-se, abanou uma sujeira imaginária e partiu, sorrindo de si mesmo.
Demorou apenas um instante e o cachorro mordeu a menina. Apesar dos gritos e da correria das outras crianças, aquilo não amedrontou o animal que continuou com as mandíbulas presas e travadas na carne da garota. Ela se debatia e o cão praticamente arrancou um pedaço da sua roupa. Enquanto tentava se livrar dos dentes afiados, viu um homem do outro lado, com as mãos em concha bebendo a água fria e parada do lago. No chão, um canivete. Quando ouviu os gritos da garota, levantou se, apanhou a pequena faca de bolso e andou lentamente para ela. Aquele momento parecia dissolver qualquer atenção e durar toda eternidade .Não havia ninguém ali. Só eles. E era como se ela já tivesse estado ali uma vez, passado por aquilo tudo. Ansiava que o homem a ajudasse. Mas ele estacou. Abaixou-se e do bolso da jaqueta, tirou uma enorme maça vermelha e começou a descascá-la. Parecia apreciar a flagelação da garota e seus olhos estavam fixos no cão. A menina parou, não pela dor mas por aquela sensação de torpor que geralmente acontece quando se vive uma situação mais de uma vez, e olhou o cão com pena.
Demorou apenas um instante, e o homem mordeu os lábios. Pressionou-os, com força, até gotículas de sangue vermelho se formarem sob a pele fina dos lábios. A menina sorria e olhava para ele. Não era tão jovem assim. Tentava agarrar com os dentes uma maça, amarrada por um barbante, ou coisa parecida, no tronco de uma árvore. O cão, sentado sob a sombra refrescante da faia, observava a situação. O homem se levantou e remexeu no bolso. O canivete brilhou e o cachorro entendeu tudo. Ficou de prontidão enquanto o homem se dirigia para o grupo de crianças. A cada passo, a tensão entre eles crescia e a menina parou de sorrir. O cão não sabia, na verdade, se latia ou avançava, mas a cada momento tudo parecia girar em torno de algo que já tinha acontecido. Em preto e branco, registrava os passos do homem e parecia calcular o que viria a seguir. Preferiu não se intrometer. Escondeu-se debaixo da árvore e só levantou depois do grito agudo da garota explodir pelo jardim. Depois não viu mais nada.
Demorou apenas um instante, e aqueles três desconhecidos se olharam. A menina deixou cair a maça pendurada na árvore, que rolou pelo chão, próximo à matilha de cães e em frente ao senhor que afiava o canivete, talvez para fumar algum cigarro. Todos pareciam hipnotizados por aquele momento. O homem abaixou-se e um dos cães levantou a orelha. Alguém chamou a menina pelo nome. Mas ela só respondeu com aceno vago, sem se voltar. Ás vezes acontece, eles pensaram. Ás vezes, você sente que já passou por algo. Como se os três já tivessem visto aquela cena, mas sem prever o que viria depois. O som, o cheiro, as pessoas. Ás vezes, as coisas voltam. E você não pode fazer nada, por que está tentando identificar se aquela sensação é verdadeira ou não. Os três se olharam por mais alguns instantes e quase, imperceptivelmente, voltaram ao normal e se desfizeram um do outro. Demora um pouco, mas as coisas sempre voltam.